Leitura: para além de sua trama, “Torto arado” revela um poderoso elemento de insubordinação social

Com um texto épico e lírico, ao mesmo tempo que é realista e mágico, “Torto arado”, de Itamar Vieira Junior, revela para além de sua trama, um poderoso elemento de insubordinação social. Nas profundezas do sertão baiano, as irmãs Bibiana e Belonísia encontram uma velha e misteriosa faca na mala guardada sob a cama da avó. Ocorre então um acidente. E para sempre suas vidas estarão ligadas ― a ponto de uma precisar ser a voz da outra. Numa trama conduzida com maestria e com uma prosa melodiosa, o romance conta uma história de vida e morte, de combate e redenção.

O torto arado que dá nome ao livro é um objeto que, usado pelos antepassados das protagonistas na lida com a terra, atravessa o tempo para representar essa herança escravocrata de tantas desigualdades. A mudez de quem nasceu mulher negra embaixo do teto de taipa é retratada de maneira paradoxalmente feroz e delicada, mostrando o enraizamento do trabalho escravo em nossa sociedade e a luta e a resistência feminina. Um romance que retrata – com extrema habilidade narrativa – um Brasil dolorosamente encalhado no próprio passado escravista.

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