Pesquisa apresentada no lançamento mostra que 80% das empreendedoras negras ouvidas enfrentam etnocentrismo, 78,9% relatam sexismo e 74,4% apontam barreiras financeiras em suas trajetórias profissionais.
São Paulo, maio de 2026 — Uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos e Pesquisas Raciais (CEP Racial), da Universidade Zumbi dos Palmares, revelou que mulheres negras empreendedoras seguem enfrentando obstáculos estruturais nas relações de consumo, crédito e desenvolvimento econômico. O levantamento apontou que 80% das entrevistadas relatam experiências relacionadas ao etnocentrismo, 78,9% identificam episódios de sexismo e 74,4% enfrentam barreiras financeiras em suas trajetórias profissionais.
Os dados foram apresentados nesta terça-feira (13), durante o lançamento oficial da Câmara de Mediação Racial nas Relações de Consumo, criada pela Universidade Zumbi dos Palmares dentro do Programa Racismo Zero. A proposta é oferecer um espaço técnico, especializado e seguro para a resolução de situações envolvendo discriminação racial em ambientes de consumo, atendimento e prestação de serviços.
A Câmara reúne práticas de mediação, justiça restaurativa e letramento racial, com apoio técnico da Faleck & Associados, referência nacional em métodos consensuais de resolução de disputas. A iniciativa conta ainda com apoio institucional do Procon-SP, FecomercioSP, Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), MOVER, Fenavist, APAS, ANAN e IERE.
Para o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, o projeto surge como uma resposta concreta à dificuldade histórica enfrentada por vítimas de discriminação ao buscar reparação.
“73% das vítimas não buscam seus direitos porque a forma como são tratadas nesses espaços acaba se constituindo em uma nova agressão. Com este trabalho, temos a capacidade de convocar essas pessoas para compreender seus direitos e fazê-los valer”, afirmou.
Segundo ele, a proposta vai além da resolução formal dos casos. “A Câmara de Mediação Racial nas Relações de Consumo nasce para que as pessoas possam sentar à mesa, colocar a sua dor e fazer com que o outro possa ouvi-las. Mais do que uma sentença, buscamos a solução de uma questão”, declarou José Vicente.
O procurador-geral da Universidade Zumbi dos Palmares, Fernando Hirsh, destacou que a criação da Câmara acompanha uma transformação cada vez mais presente no ambiente corporativo e jurídico brasileiro, especialmente diante da ampliação do debate sobre diversidade, reputação e responsabilidade empresarial.
Já Diego Faleck, diretor da Faleck & Associados, ressaltou que o trabalho será conduzido de forma colaborativa e com foco em soluções restaurativas.
“Nosso compromisso é entregar a humanização desses conflitos e resultados restaurativos da melhor maneira possível”, afirmou.
A iniciativa também recebeu apoio de representantes do varejo, do setor de segurança privada e de movimentos empresariais voltados à equidade racial. Para Luiz Orsatti Filho, diretor executivo do Procon-SP, a Câmara preenche uma lacuna importante no enfrentamento da discriminação racial nas relações de consumo.
“O Procon Racial atua na prevenção, trabalhando com educação e letramento nas empresas. A Câmara fecha esse ciclo: quando o fato ocorre, ele é trabalhado em ambiente especializado para que, além da reparação, esse fato não se repita”, disse.
Representando o MOVER — movimento formado por grandes empresas comprometidas com a promoção da equidade racial — Natália Paiva lembrou que o racismo também produz impactos econômicos diretos para marcas e negócios.
“Uma pesquisa recente revelou que 91% dos consumidores negros de perfumes importados já vivenciaram situações de racismo. Metade deixou de comprar ou nunca mais voltou ao estabelecimento. Isso evidencia que, devido ao racismo, as empresas estão deixando de obter receita”, afirmou.
O estudo apresentado pela Universidade Zumbi dos Palmares ouviu 90 empreendedoras negras da cidade de São Paulo entre os dias 5 e 10 de maio deste ano. A pesquisa identificou ainda desafios ligados ao acesso ao crédito, inclusão digital, barreiras tecnológicas e desigualdades estruturais nas relações de mercado.
A Universidade Zumbi dos Palmares é a primeira instituição de ensino superior do Brasil voltada à promoção da igualdade racial e à formação de lideranças negras. Por meio do Programa Racismo Zero, desenvolve ações voltadas à articulação entre educação, justiça, mercado e inclusão social.