A vida da juventude negra importa: uma manifestação da Universidade Zumbi dos Palmares sobre o relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”
A Universidade Zumbi dos Palmares manifesta profunda preocupação diante dos resultados apresentados pela sétima edição do estudo Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã. Os indicadores divulgados revelam uma realidade que nenhuma sociedade democrática pode naturalizar: a persistência de um padrão de letalidade que atinge de forma desproporcional a população negra do país.
O Censo Demográfico de 2022 do IBGE apurou que 55,5% de seus habitantes se autodeclaram pretos ou pardos, correspondendo à maioria do povo brasileiro. Considerando tal cenário, é profundamente alarmante que essa mesma parcela represente 86,3% das vítimas de mortes decorrentes de intervenção policial nos territórios analisados pelo relatório. Os dados demonstram que a cor da pele continua sendo um marcador decisivo da exposição à força letal, atingindo sobretudo homens jovens das periferias e favelas, justamente o segmento que deveria encontrar no Estado amparo institucional, dignidade e garantias fundamentais.
Os números apresentados não podem ser tratados como mera abstração estatística. Cada percentual retrata vidas interrompidas, famílias marcadas pelo luto e comunidades privadas do futuro. Quando determinados grupos sociais continuam, ano após ano, concentrando a maior parte dos óbitos decorrentes de ações oficiais, o debate sobre segurança pública torna-se um tema decisivo para a nossa própria sobrevivência.
A investigação também expõe o apagamento estatístico: a insuficiência de informações sobre raça e cor em parcela considerável dos registros oficiais dificulta a análise desse fenômeno e compromete a construção de respostas institucionais eficazes. Produzir dados de qualidade, transparentes e completos é condição indispensável para fortalecer o controle social e democrático.
A Universidade Zumbi dos Palmares reafirma seu compromisso com a promoção da igualdade racial e da justiça social. Entendemos que enfrentar problemas estruturais requer mais do que o protocolo da indignação: exige ciência, diálogo, articulação institucional e dedicação permanente à defesa da vida. A potência do conhecimento reside na capacidade de compreender realidades complexas, qualificar o debate público e transformar diagnósticos em respostas concretas para a sociedade.
Nenhuma democracia se fortalece quando a cor da pele permanece determinando quem está mais exposto à violência letal. Romper com esse padrão é uma responsabilidade coletiva da qual a Universidade Zumbi dos Palmares jamais se furtará.
Universidade Zumbi dos Palmares
São Paulo, 3 julho de 2026.